terça-feira, 21 de dezembro de 2010

"É muita falcatrua, e um pouquinho assim de vadiagem!" Parte 2

Cobertura midiática: política VS banalização
Na época das Diretas Já, a mídia desempenhou um importante papel de militância conquistando o apoio da população, fez uma cobertura mais apaixonada, um jornalismo questionador, agressivo, de cunho político-social e mais engajado. A jornalista Carolina Matos (Publifolha, 2008, p.95) observa que mesmo não tendo a aprovação pelo regime militar no congresso, “a mobilização da campanha das Diretas-Já ajudou a acelerar o retorno à democracia civil, pavimentando o caminho para a fase de redemocratização”.
No entanto, as mudanças do jornalismo que viriam a partir dos anos 70, inspiradas no modelo liberal americano, moldavam o jornalismo de forma que este perderia as características mais fortes, para se tornar um produto que varia de acordo com interesses comerciais/partidários. A atuação passa a ser menos política e mais mercadológica, de forma que a imprensa se torna menos politizada. Tais reformas por um lado trouxeram a ideia de imparcialidade na cobertura - o que pode ser visto como um avanço no jornalismo- mas, em contrapartida, retirou do jornalismo a militância e a cobertura apaixonada.
Quero com isso fazer observações sobre a cobertura da mídia quando trata de assuntos que infelizmente não ganham tanto destaque, mas são os mais importantes para o interesse público. O aumento salarial dos deputados não deveria ser aceito de forma passiva pela população, tampouco pela mídia. A questão mexe com valores públicos, é uma afronta aos cidadãos que passam todos os dias trabalhando para ganhar um salário mínimo ao fim do mês e gastar pelo menos R$3,00 de passagem (como está previsto para 2011) diariamente, em péssimas condições de transportes. A população se revolta, mas a revolta não passa da indignação, não passa de declarações em grupos de amigos, redes sociais e abaixo-assinados online. A Opinião Pública perde seu valor e com ajuda da mídia se torna um objeto, passa a ser estatística, como se os censos e os números resumissem a voz do povo.
O caso dos deputados demonstra claramente que ao contrário do que era antes – na política grega, quando a Opinião Pública configurava a política - hoje a política rege a Opinião Pública. Viramos objeto da política. No que diz respeito à mídia, gostaria de culpá-la, com razão, pela péssima cobertura do caso, e para isso trago as ideia do teórico Walter Lippmann (Opinião Pública, 1922, p.14).que afirma que a formulação de idéias e opiniões depende da informação e do saber, depende da maneira como é distribuída. Como Lippman pontua, a opinião não emerge naturalmente das pessoas, é um processo em que os interessados no controle social se envolvem. Isto posto, chamo a atenção para o modo como a cobertura da mídia tem sido inútil para a evolução política do país, como a falta de engajamento dos meios de comunicação gera conseqüências na formulação de opiniões e críticas por parte da sociedade.
Lippman ainda argumenta que as pessoas são egoístas, com interesses particulares, e a imprensa vai ao encontro desta necessidade do auto-interesse. Carolina Matos (p.263) partilha do mesmo ponto de vista de Lippman (p.14), quando diz que “o jornalismo está refletindo este declínio do engajamento cívico porque uma grande parte da sociedade não está realmente interessada em política e na vida pública.”
Lippman (p.15) diz que a ansiedade da imprensa está em conquistar a atenção do público e vendê-la aos anunciantes do que servir com informação útil e relevante aos indivíduos. Para manter a audiência, a mídia cria uma receita diária do que vai ao encontro das expectativas dos indivíduos, com uma dieta restrita, de cobertura episódica, sem contexto e simplória.
Lippman é um autor de 1922, que continua contemporâneo, visto que continua com razão no que diz sobre a cobertura da imprensa (já que em sua época não havia TV), hoje temos a a tv, a imprensa, o rádio, e todos os meios que facilmente atingem o povo –ou público- e formam opiniões de forma simplória, sem engajamento e com pouca participação em questões políticas e sociais. Uma opinião pacata, sem motivos para ser questionadora ou agressiva. Hoje, a grande mídia já passou a dieta das informações a serem consumidas pelo povo, e desta vez, estão voltadas para as compras de fim de ano; cartas para Papai Noel; rápida cobertura sobre desastres climáticos e algumas notinhas internacionais. 

Tiro para o Rio e aumento para Brasília.
De forma muito mais rápida e descontextualizada tem-se a cobertura política, que transforma o que deveria ser debatido de forma contundente e questionadora em um simples acontecimento corriqueiro. Cadê os grandes meios de comunicação que fizeram cobertura diária da perseguição no Rio? Onde estão aqueles que exigiam prisões de traficantes e ladrões? Cadê os apresentadores que tanto clamavam por polícia e captura de bandidos? Onde estão aqueles que gritam por justiça? Está na hora de gritar por prisões e mortes de outros tipos de ladrões...ladrões ricos, que não precisam andar com armas nas mãos para roubarem, que não falam errado ou com gírias, que não andam mal vestidos e não fazem crimes de visibilidade. São ladrões de classe média, bem vestidos, com bons modos, que cometem crimes diariamente, mas apenas não são notados.
No caso do Rio grande parte da cobertura era enrustida, quando na verdade o intuito era uma higienização de pobres. Quando trataram do Rio, os grandes meios de comunicação gritavam por ação da polícia, faziam real sua própria versão de Tropa de Elite, exigiam policiamento, acompanhavam dia e noite os passos dos policias e dos traficantes. Mas... e agora? Um aumento de 60% no salário daqueles que trabalham algumas vezes na semana, que recebem auxílios e benefícios infindáveis, que são pagos com dinheiro público e nunca trabalham por quem os elege, será que não é um fato estrondoso? não merece uma outra cobertura?Talvez análises e debates públicos, coberturas incansáveis, militantes, apaixonadas e tão dedicadas como fizeram no Rio. Por que não dedicar espaços maiores de telejornais para este caso? Poderíamos ter um jornal vespertino com fatos mais relevantes que o Natal nos EUA, o aumento de vendas para o fim de ano, os traficantes da favela ou o animalzinho que deu cria no Zoológico.
Nas condições apresentadas, percebemos o quanto somos irrelevantes aos olhos de nossos representantes, o quanto a mídia se preocupa em mediar os debates públicos. Percebemos, além de tudo, que nossa importância como cidadão é explicitamente descartada pela justiça, pelos políticos e pela mídia. Coincidentemente, são estes os setores que se afirmam servidores da sociedade e defensores dos interesses da população, quando na realidade, o interesse está em controlar o interesse do público. Definitivamente, nestes moldes brasileiros, democracia não é governo do povo, mas, governo para o povo.

Links: Folha

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